NINETS

NINETS

Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Intervenções em Tecnologias Sociais

Apresentação

O Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Intervenções em Tecnologias Sociais resulta da experiência acumulada por suas/seus integrantes no âmbito da Universidade Estadual da Paraíba desenvolvendo iniciativas que envolvem, de maneira articulada, ações de investigação, produção do conhecimento e intervenções sociais com grupos subalternizados em função de discriminações articuladas à raça, gênero, sexualidade e outros marcadores sociais da diferença. Nesses processos, tem se enfatizando, de maneira prioritária, a maneira como tais marcadores se articulam na produção de dinâmicas sociais no território em que se encontra a UEPB.

Pode se afirmar que seu delineamento decorre das interações entre atuação acadêmica de seus membros com feminismos locais e grupos socialmente identificados a partir das diferenças de raça, gênero, sexualidade, dentre outros marcadores. Sob perspectivas diversas, as abordagens acerca da atuação feminista que se desenvolveram a partir da década de 1970 têm promovido uma homogeneização do feminismo brasileiro a partir do eixo Sudeste/Sul, desconsiderando especificidades e dinâmicas locais de enunciação. Nesse quadro, a separação entre as esferas acadêmicas e do movimento é tomada como dado representativo do feminismo brasileiro. No entanto, tomar a organização feminista como realidade homogênea desconsiderado seus diferentes contextos de enunciação, implica em estabelecer cumplicidades com narrativas enredadas nas dinâmicas de colonialidade presentes nas clivagens regionais intra-regionais que compõem o Brasil.

Em localidades marcadas pela dispersão de grupos articulados por agendas constituídas em torno de marcadores de gênero, sexualidade e raça persiste uma firme aliança entre grupos tidos como “acadêmicos” e ativismos articulados em torno de agendas feministas, anti-racistas e das dissidências de gênero e sexualidade, formando coalizões para salvaguardar e fortalecer agendas construídas localmente. Cadastrados como diretórios de pesquisa junto ao CNPq, tais grupos costumam negociar com coletivos locais temas articuladores de atividades de ensino, pesquisa e extensão. É prática comum suas/seus representantes integrarem, via grupo, ou como feministas autônomas, redes feministas que se articulam regional ou nacionalmente.

O NINETS adquire seu delineamento nesse contexto. Os grupos articulados no âmbito da UEPB possuem uma “agenda” acadêmica, com componentes curriculares assegurados na graduação e pós-graduação, atuando também de forma sistemática em redes de movimentos feministas locais. A relação com os grupos políticos respalda a presença da universidade e ajuda a negociar a inclusão de componentes curriculares em cursos de graduação e pós-graduação, além de criação e manutenção de linhas de pesquisa articulando diferentes áreas temáticas. Estas, por sua vez, associam-se a ações de extensão efetivadas mediante projetos de intervenção em temas articuladores de investigações e as atividades são sistematizadas na produção de artigos que problematizam a experiência acumulada.

Por tecnologia entendemos as práticas “racionalizadoras” das relações de poder, colocadas em funcionamento por meio de procedimentos técnicos. Através de uma regularidade de estratégias e táticas agem sobre os indivíduos constituindo os processos de subjetivação. Refere-se, portanto, tanto aos processos por meio dos quais se efetivam, como aos “produtos” que resultam desses processos.

A apropriação enviesada por abordagens localizadas em sistemas de saber colonialistas promove o empobrecimento das potencialidades presentes em tecnologias (hoje chamadas de sociais) inspiradas em ordens epistemológicas que resistiram à homogeneização promovida pelo ocidente. Interessa-nos conhecer as possibilidades táticas das invenções articuladas “alhures” aos processos de racialização, sexualização que estão na base da geopolítica colonialista.

Propomos a reflexão sobre a localização dos aparatos tecnológicos nas estratégias delineadas por sistemas de controle e dominação, como, por exemplo, a localização dos corpos subalternizados/as pela história em relação à tecnologia, as imbricações entre o domínio tecnológico e construção do sujeito nas epistemologias colonialistas.

Entendemos que essas reflexões precedem a elaboração de estratégias de intervenção, ao passo que propomos ao investimento no desenvolvimento de tecnologias sociais organizada mediante tais princípios, como vimos experimentando até o momento.

O NINETS existe porque seguimos interpelada/os por Ninete, travesti negra, “deficiente”, 24 anos, assassinada em 15 de abril de 2011 na cidade de Campina Grande, sob o registro “atento” das câmeras de trânsito da cidade. Nossa existência é acalentada pelo desejo de contribuir para que cenas como essas deixem de existir.

 

Por que Saberes Subalternos e Tecnologias Sociais?

 

O período compreendido entre as décadas de 1960 e 1980 abrigou um conjunto articulado de dinâmicas que provocaram inflexões profundas na maneira de problematizar o que chamamos de “realidade social”. Um esforço para nos colocarmos nos cenários nos põe frente a um quadro de desolamento mediante o espectro de guerras que consumiram os três primeiros quartos do século vinte, um legado de mortes, destruição e extermínio acumulados ao longo dos processos de colonialidade estabelecidos pelo ocidente. No período compreendido assistimos nos cenários urbanos das regiões tidas como centros do sistema, o início de um regurgitar das promessas

Nesse contexto se aglutinou um conjunto de interpelações enunciadas de distintas localizações subalternizadas, através de eventos que incidiram de forma determinante na maneira como se traduz e se teoriza a tessitura dos processos sociais, num movimento denominado pelo filosofo francês Michel Foucault (2007) de retorno dos saberes dominados, compreendidos como

uma série de saberes que tinham sido desqualificados como não competentes ou insuficientemente elaborados: saberes ingênuos, hierarquicamente inferiores, saberes abaixo do nível requerido de conhecimento ou de cientificidade (FOUCAULT, 2007, p.170).

 

Das várias periferias de sistema, pessoas de diferentes pertencimentos raciais, territoriais, cores e dissidências raciais, sexuais e de gênero inauguram um jeito “diferente” de problematizar o que chamamos de realidade.  De suas distintas localizações evidenciam a relação entre mudança econômica e regulação dos comportamentos, apontando como processos de racialização e sexualizacão dos corpos e territórios constitui a estratégia chave de manutenção de uma ordem de dominação, enfatizando que a ordem de dominação se estabelece mediante um processo de colonização epistemológica. Como observa a filosofa indiana Gayatry Spivak (2010), convivemos com uma heterogeneidade de subalterno/as não possuidore/as de uma consciência autêntica pré ou pós-colonial. Trata-se de subjetividades precárias construídas no marco da violência epistêmica colonial que desclassifica os conhecimentos e as formas de apreensão do mundo da pessoa colonizada, surrupiando-lhes a faculdade da enunciação.

Elucidando as imbricações entre a forma como interpretamos e atribuímos significados ao mundo e as complexas engrenagens de controle historicamente instaladas pelo ocidente, desvelam a constituição de um modelo epistemologicamente constituído sobre o binário natureza versus razão, posicionadas como dois pólos dicotômicos e assimetricamente fixos, cabendo ao pólo inferior apenas a condição de exterior constitutivo daquele tido como superior, mais especificamente, de atestar sua superioridade.  Tal operação possibilitaria as diversas acomodações históricas da relação saber-poder. Por meio de cadeias analógicas polarizadas pelo binômio natureza/razão se delineiam processos de humanização, racialização e sexualização identificação por meio dos quais se procede à identificação e diferenciação das pessoas e as dinâmicas desiguais de poder que lhes são associadas.

As reflexões têm impacto de vulto na compreensão da agencia humana. Desde a década de 1980 o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (1987) vem apontando a existência do movimento reflexivo no âmbito de ciências como Física, Química e Biologia que mudaram indelevelmente a produção do conhecimento. Conforme observa, condições sociais, contextos culturais, modelos organizacionais da investigação científica passaram a ocupar lugar bastante relevante na reflexão epistemológica de cientistas das chamadas ciências “naturais”.

Sousa Santos (idem) identifica uma sucessão de ataques que vem esfacelando a ordem epistemológica dominante, a partir do próprio campo das ciências “naturais”, como a teoria formulada por Einstein acerca da relatividade em relação a simultaneidade de acontecimentos locais e distantes; o princípio da incerteza desenvolvido pelo físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976) em 1927 ; o teorema da incompletude do matemático austro-húngaro Kurt Friedrich Gödel (1906-1978), em 1931; os estudos em termodinâmica e a formulação da teoria das estruturas dissipativas  do físico e químico russo lya Prigogine (1917- 2003), Nobel de Química de 1977; a teoria do núcleo atômico e partículas elementares pelo físico húngaro Eugene Paul Wigner (1902-1995), Nobel de Física de 1963; pela contribuição do/as biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco J. Varela (1946-2001), a partir de conceitos como pleomorfismo, autopoesis, auto-organização.

Trata-se, segundo ele, de questionamentos potentes em evidenciar a manipulação política e econômica de “verdades” sobre a matéria e sobre o processo de materialização apoiadas na as na aráter inanimando da natureza.

Autore/as como Bruno Latour (1994), Gilles Deleuze e Felix Guattari (2000) e Pierre Levy (1998), sugerem a existência de uma série de acoplamentos heterogêneos à constituição da agencia, problematizando as distinções estabelecidas entre coisas, animais e pessoas, sujeitos pensantes e objetos pensados. Nas suas abordagens, natureza desnaturalizada e dispositivos técnicos são colocados num plano simétrico e colaborativo, como “atores inseridos numa coletividade cuja fronteira está em permanente redefinição” (LEVY, 1998, p.137).

Enfatizando como nossos sistemas históricos dependem de relações estruturadas entre as pessoas, as abordagens convidam ao investimento na ciência e a tecnologia como possibilidade de renovação de análise e de ação política, desde que realizada mediante o abandono de qualquer essencialismo “naturalista”, ou “social” que reiterem a bifurcação sociedade-natureza, sujeito-objeto, humano-máquina, nos termos propostos por M. Domenèch (et al, 2001, p. 26)

Num artigo recente, o jornalista e sociólogo Ignácio Ramonet (2016) apresenta um quadro corroborador da sugestão do/as autore/as, chamando a atenção para a densidade da tecnologia da comunicação em rede como vetor das dinâmicas políticas e econômicas contemporâneas, atuando na formação de uma aliança sem precedentes entre os aparatos militares de segurança de Estado, indústrias e gigantes da web criando um verdadeiro império da vigilância, citando as denuncias de Edward Snowden, ex-funcionário da CIA que tornou pública a existência de uma rede de espionagem norte-americana e do jornalista australiano Julian Assange, fundador do Wikileaks.

É, entretanto, a critica feminista que atenta para o fato de que grande parte do quadro em que se encontram inscritos os corpos marcados pela diferença está conectado com as relações sociais da ciência e tecnologia, como observa a bióloga, filósofa e escritora feminista estadunidense Donna Haraway (2009). Ressaltando a urgência de uma política dirigida para a ciência e a tecnologia, chama a atenção para a função estratégica das noções “humano”, “natureza” e “técnica” e para a necessidade de problematizar a dualidade dicotômica como premissa epistemológica e estranhar distinções tidas como familiares e óbvias, pois,

sem problematizar dicotomias entre mente/corpo, animal/humano, organismo/máquina, público/privado, natureza/cultura, homem/mulher, primitivo/civilizado, torna-se impossível apreender a situação das mulheres por sua integração/exploração em um sistema mundial de produção/reprodução e comunicação que constituiria a informática da dominação. (HARAWAY, 2009, p.63).

Deter a técnica ou tecnologia que permite transformar e dominar a natureza constitui a base de um processo de “humanização” que se efetiva por meio de categorizações racializantes e sexualizantes presentes nos processos de subjetivação que controlam a localização, fluxo e movência dos corpos no espaço e informam a organização das dinâmicas de globais e locais de poder.

As contribuições recentes do campo articulado em torno do campo contingencialmente nomeado como queer permitem explorarmos as complexas articulações estabelecidas entre o controle do desejo e as técnicas que põem em movimento complexas engrenagens que movem a sociedade de consumo, presentes na circulação de produtos e serviços que se expandem indefinidamente através de milhares de plataformas digitais de intercâmbio; a aglomeração da industria farmacêutica e de alimentos e para adensar a capacidade de manipulação biotecnológica daquilo e do modo como comemos, sentimos, desejamos e pensamos; na pressão que exercida pelo agronegócio sobre produtores/as do “terceiro mundo”; no recrutamento de mulheres, crianças de localizações especificas do planeta para os circuitos produtivos mais tóxicos e mortíferos; na produção de uma massa crescente de corpos extermináveis, no esgotamento de modelos de intervenção articulados pela negociação com a institucionalidade estatal.

Os cenários vislumbrados na análise conduzida pela interpelações subalternas apontam as infinitas possibilidades de condicionamento do comportamento da população mundial em grande escala, inclusive dos aparatos governamentais e nos dizem que Estratégias de organização dependerão cada vez mais de como compreendemos as tessituras da logística da dominação e aprendamos a nos mover nesse espaço.

 

Políticas de acesso a tecnologia 

 

A discussão sobre políticas de “popularização” do acesso tecnologia é registrada pelo menos desde a década de 1960, com a organização do Movimento Tecnologias Apropriadas ou Alternativas/TAs, uma espécie de frente de trabalho voltada à produção de conhecimento tecnológico para combater efeitos da desigualdade social que enuncia a preocupação com os impactos ambientais da tecnologia “convencional” e a minimização da pobreza nos países de “Terceiro Mundo”.

Durante as décadas de 1970 e 1980, houve uma proliferação de grupos de pesquisa sobre as TAs nos países de capitalismo “avançado”. O movimento desencadeado no período difundiu-se em diversas continentes, resgatando a experiências desenvolvidas na Índia durante a década de 1920, mais especificamente no período 1924 a 1927, com a invenção da charkha, roca artesanal usada nas vilas e possibilitava a popularização da fiação do algodão, reconhecida como o primeiro equipamento tecnologicamente apropriado, como apontam Novaes e Dias (2009, p. 20).

As idéias de Gandhi foram aplicadas também na República Popular da China e, mais tarde, influenciaram o economista alemão Ernst Friedrich Schumacher (1911 -1977) que cunhou a expressão Tecnologia Intermediária para designar uma tecnologia que, em função de seu baixo custo de capital, baixa complexidade e atenção à dimensão ambiental, seria mais adequada para os países pobres. Como observa Renato Dagnino (1976), o Grupo de Desenvolvimento da Tecnologia Apropriada, criado por ele, e a publicação em 1973 do livro Small is beautiful: economics as if people mattered, traduzido para mais de quinze idiomas, causaram grande impacto, tornando-o conhecido como o introdutor do conceito de TA no mundo ocidental. Ainda segundo o autor, registrou-se contexto uma pluralidade de expressões para referir-se às TAs, enfatizando desde aspectos como participação comunitária no processo decisório de escolha tecnológica, baixo custo dos produtos ou serviços finais e do investimento necessário para produzi-los em pequena ou média escala, baixa complexidade na produção do artefato e impactos na utilização para gerar renda, melhorar condições de acesso à saúde, dentre outros.

No Brasil, a TA chegou a ser objeto da política de ciência e tecnologia no âmbito do CNPq nos anos de 1980 e 1990. Entretanto como aponta Dickson (1978), ainda que problematizasse o investimento público em políticas tecnológicas vinculadas exclusivamente a demandas e interesses de grupos econômicos e empresarias e a base evolucionista presente na concepção de tecnologia empregada, as experiências fracassaram por falta de envolvimento de co-gestão e auto-gestão das pessoas envolvidas.

A ênfase neoclássica na relação entre escolhas tecnológicas e o preço relativo dos fatores de produção manteve o debate sobre tecnologia circunscrito a alternativas para atenuar ou compensar os efeitos do modelo tecnológico dominante, enfocando a inadequabilidade das tecnologias “convencionais” para a realidade dos países periféricos. A idéia de “transferência” tecnológica circunscreveu-se à construção de estratégias cognitivas baseadas em realidades alhures. As alternativas tecnológicas criadas para os países periféricos não alterara a situação que os tornava dependentes dos mecanismos de transferência tecnológica. A própria ideia de “oferta” e “transferência” tecnológica produzida pela comunidade de pesquisa, ainda que socialmente sensibilizada para atores sociais que as recebiam, foi posta sob questão.  Conforme observa Dagnino, apontou-se que o movimento da TA tinha mais a ver com um sentimento de culpa de pesquisadores e empresários do “Primeiro Mundo”, do que com iniciativas capazes de cessar a dependência de mecanismos de transferência.

Assim, a utilização da denominação Tecnologia Social/TS visou superar a memória acumulada com as experiências de TAs, consideradas como não suficientemente críticas, porquanto circunscritas ao processo de produção do artefato de maneira desarticulada em relação aos processos econômicos nos quais se encontrava engendrada. Assistiu-se, dessa maneira, a articulação de esforços de ressignificação por grupos latino-americanos para evitar equívocos detectados em iniciativas passadas com propósitos similares, “enfatizando a maneira de se interpretar as demandas cognitivas dos interlocutores, os contextos locais”, Como aponta Dagnino (2009, p. 6)

As TS tiveram grande destaque nos debates que ocorreram na década de 1990 e primeira década do século atual. Embora anunciando a mudança de enfoque “metodológico”, manteve a aposta no enfoque conceitual voltado para o poder local. É bom frisar que essa ênfase no local como instancia decisória constituiu uma aposta que marcou a ultima década do século vinte, se estendendo pela primeira do século vinte e um, relacionadas à ênfase descentralizatória e participacionista inaugurada com a Constituição Federal de 1988, especialmente no que se refere as competências das administrações municipais e a participação da sociedade civil, debate que acompanhou o processo de regulamentação de muitas políticas sociais preconizadas pela constituinte.

As consequências da abertura do mercado brasileiro para produtos importados e a implantação da agenda neoliberal iniciada Programa Nacional de Desestatização, com a venda de empresas siderúrgicas pelo governo do então presidente Fernando Collor de Melo (1990-1992), aprofundadas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) mobilizou intelectuais com atuação em diversas áreas, universidades, o novo sindicalismo, setores da igreja católica e movimentos sociais. O período foi marcado por intensas discussões sobre o que se denominou a nova ordem mundial e as transformações no mundo do trabalho e da produção, ocupando parte considerável do debate nas ciências sociais, em torno do temas como globalização, reestruturação produtiva, transformações no mundo do trabalho e organização sindical.

Nesse processo houve forte engajamento de intelectuais, administrações municipais denominadas de “democráticas e populares”, inspiradas em experiências participativas implementadas pelas administrações primeiras administrações petistas de Porto Alegre-RS e Recife-PE, universidades, do novo sindicalismo articulado em torno da Central Única dos Trabalhadores/CUT e da ação social católica.

Em 1996, foi oficialmente anunciada à constituição da Rede Nacional de Estudos e Pesquisas Sobre o Trabaho/UNITRABALHO[1], articulando universidades publicas de todas as regiões do país com o propósito de buscar novos referenciais para pensar alternativas de geração de trabalho e renda e organização política para trabalhadore/as brasileiro/as. Em 1999 a CUT decidiu investir no apoio a formas autônomas e autogestionárias e cria a Agência de Desenvolvimento Solidário/ADS[2] juntamente com a Unitrabalho, o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos/DIEESE[3], a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional/FASE[4] e outras organizações. Enquanto a ADS fornecia suporte teórico, técnico, atuando intermediação de apoios para fortalecer os grupos que acompanhava, constituía-se, em março de 2000, a UNISOL Cooperativas, uma central de empreendimentos solidários e cooperativas com atuação em âmbito nacional, articulando cooperativas apoiadas pela Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e de Sorocaba, do Sindicato dos Químicos do ABC e da CUT. No âmbito da Igreja Católica, a Cáritas Brasileira, órgão vinculado a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil/CNBB também passou a investir fortemente nesse campo.

Nesse contexto se conferiu à Economia Solidaria um lugar central nos debates sobre as Tecnologias Sociais. Em junho de 2003 foi realizada a Plenária Nacional da Economia Solidária e oficializada a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva (2003-2010), no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Simultaneamente à SENAES, foi criado também o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES).

Como era de se esperar, com toda a capilaridade das organizações envolvidas vinculou as demandas relacionadas a TS a agenda da Economia Solidária. Em 2003 formouse a Rede de Tecnologias Sociais, compreendendo as TS como “produtos, técnicas e/ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social”[5].

De acordo com Dagnino (ano) por conta do viés utilitarista reafirmado na concepção, a partir de 2004 enfatizou-se a necessidade de se investir na discussão sobre uma base teórica para pensar as TS no Brasil. A partir daí o campo articulado em torno das TS organizou-se em duas vertentes. A primeira apontava a necessidade de aliados indispensáveis no campo produtivo, como as cooperativas e fábricas recuperadas; no Estado, como os gestores das políticas sociais e de Ciência e Tecnologia; e, também, nas universidades, institutos de pesquisa, professore/as, aluno/as e técnico/as, em especial o/as que exerciam algum ativismo nas incubadoras universitárias de cooperativas populares. O autor destaca ainda a importância das TS como elemento agregador dos vários grupos articulados pela Economia Solidária e, por outro lado, a Economia Solidária como elemento agregador dos vários grupos articulados pelas produção e geração de tecnologias sociais. Ambos partilhavam da compreensão de que as TS poderiam proporcionar aos grupos produtivos a revitalização de formas associativas e autogestonárias e que estas, por sua vez, poderiam vir a se constituir num espaço privilegiado para organizar a produção material e a resistência coletiva. Análises mais otimistas como a do economista Paul Singer (2000), que durante 13 anos esteve a frente da Secretaria Nacional da Economia Solidária, apostavam que seria reinvenção de formas de organização do movimento social brasileiro.

A segunda vertente defendia o investimento na produção de conhecimento acerca das relações ciência e tecnologia, propondo o investimento num marco analítico-conceitual para abordar a TS articulada a políticas de desenvolvimento técnico-científico.

O saldo acumulado pela articulação e significativo mas bem pequeno se considerarmos o investimento de duas décadas de trabalho e esforço e, sobretudo, a fragilidade de algumas conquistas que mínguam gradativamente, desfiguradas mediante negociações estabelecidas em torno de pactos pela governabilidade.

A critica articulada a partir da descolonialidade vem problematizando a ênfase conferida a determinados termos que se constituíram em núcleos de força e poder nas praticas vocabulares e discursos políticos na America Latina.

Os autores Sylvio Gadelha (2009) e Silvana Totora (2011) mostram como tática delineada para ajustes iniciados na década de 1970 são mais insidiosas que imaginamos. Dialogando sobre os investimentos realizados por Foucault (2008, 2008b) [6] acerca da especificidade do modelo neoliberal norte-americano comparativamente ao modelo alemão. Enquanto o segundo apoiava-se no liberalismo para exprimir uma relação entre governantes e governado/as, ao/s americano/as utilizam-no para desenvolver o argumento de confronto a três fatores: as políticas keyneisanas que sustentaram o New Deal, pactos sociais herdados da guerra e o crescimento da administração federal por meio de programas sociais. Por essa razão, o neoliberalismo desenvolvido pela Escola de Chicago constitui-se como arte de governar assentada na razão de Estado. Tomando por base a economia de mercado para explicar relações e ou fenômenos sociais que não são considerados em, princípio, genuinamente econômicos.

Para Gadelha (idem) o neoliberalismo norte-americano promove um tipo de deslocamento no qual o objetivo da análise e de governo já não se restringe ao Estado e aos processos econômicos, mas passa para a sociedade, para o comportamento dos indivíduos, relações sociais e redes de sociabilidade. “Alem de funcionar como princípio de inteligibilidade,generaliza-se como substância ontológica do ser social, um ethos. A economia passa a ter como objeto o comportamento humano, aquilo que o mobiliza e o anima” (GADELHA, 2009, p. 174). 

Escola de Chicago construiu um modelo normativo instituindo processos de subjetivação que vem transformando sujeito de direitos em indivíduos empreendedores e empresas, processo visto de maneira pujante na cultura do empreendedorismo. Individuo moderno se transmuta no trabalhador empresa. Educação e vista como investimento cuja acumulação permitiria não só o aumento da produtividade do individuo trabalhador mas também a maximização dos seus rendimentos ao longo de sua vida.

Como observa Silvana Tótora (2011), nesse contexto investe-se na noção de capital humano, através da qual o privilégio à análise de custos econômicos e produção de renda invade todas as demais esferas, sociais e políticas. “Nela o/a trabalhador/a é recolocado para o sistema como problema relacionado ao crescimento” (TÓTORA, 2011, p. 89). Resulta daí a preocupação em formar e melhorar o capital através de investimentos na educação escolar, na saúde, na mobilização dos afetos e em todos os tipos de relação estabelecidas; em desenvolver técnicas de inovação para descobrir e implementar novas formas de produtividade.

Tótora (idem) também observa que com o neoliberalismo vem o discurso da multiplicidade, da igualdade entre as diferenças, do combate a privilégios e da universalização do acesso a direitos socais, em especial à saúde e educação,

tudo para fazer valer a chamada igualdade de condições, pressuposto básico à construção da ideia de que cada individuo é uma empresa. O capital humano somente interessa à economia na medida em que se constitui de um conjunto de recursos raros, compostos de elementos inatos – como equipamentos genéticos hereditários – e adquiridos, referentes aos investimentos educacionais que não se restringem à escolarização ou aprendizagem profissional (TOTORA, 2011, 92).

A ênfase participacionista como estratégia discursiva para construção do “espírito empreendedor”. Como observado por Tótora(2006) todos/as são convocados/as à participação contínua, pois todos/as são responsáveis pelo sucesso ou fracasso de um governo. Os conselhos de gestão de políticas públicas são os novos espaços políticosinstitucionais de participação. À massificação do sufrágio universal vem somar-se a participação contínua de segmentos nos diversos conselhos para fazer valer direitos das chamadas minorias.

Gadelha (2009) destaca ainda as reverberações dos ajustes neoliberais a educação. A capacitação e formação funcionam como investimento cujo acúmulo permitiria não só o aumento da produtividade do indivíduo como também a maximização de seu rendimento ao longo da vida. Nesse contexto, a educação é acionada como uma das tecnologias mais eficientes para concretizar uma nova forma de governamentalidade que busca programar estrategicamente as atividades e o comportamento dos indivíduos, a fim de controlá-los, programá-los em suas formas de agir, sentir, pensar e situar-se diante de si mesmos, da vida que levam e do mundo em que vivem, através de determinados processos e políticas de subjetivação, como as novas tecnologias gerenciais no campo da administração (management); a disseminação de práticas e saberes “psi” voltados à dinâmica e à gestão de grupos e das organizações, propaganda, publicidade, marketing, branding, literatura de autoajuda etc. Para ele,

Esses processos e políticas de subjetivação, traduzindo um movimento mais amplo e estratégico que faz dos princípios econômicos (de mercado) os princípios normativos de toda a sociedade, por sua vez, transformam o que seria uma sociedade de consumo numa sociedade de empresa (sociedade empresarial, ou de serviços), induzindo os indivíduos a modificarem a percepção que têm de suas escolhas e atitudes referentes às suas próprias vidas e às de seus pares, de modo a que estabeleçam cada vez mais entre si relações de concorrência (GADELHA, 2009, p. 178).

Oswaldo López-Ruiz (2007), demonstra como o surgimento e incorporação dos termos em nossas praticas cotidianas e rotineiras estão relacionados à emergência de uma nova concepção de indivíduo, cuja conduta deve estar orientada para o planejamento, financiamento, gestão e avaliação de si como um negócio. Esta noção de indivíduo revela-se paradigmaticamente na retórica dos executivos das transnacionais, dos coaches e headhunters e na literatura pop management.

Nesse contexto deve ser entendida a pressão pela redução do número de filhos, por exemplo, nas famílias abastadas, em decorrência dos altos custos para formar um/a filho/a competitivo/a no mercado de trabalho. Também nesse contexto deve ser entendido o avanço do fundamentalismo como prática reiterativa da heteronormatividade.

As reflexões apresentadas mostram como estratégia delineada por coletivos políticos articulados pelo enfrentamento a efeitos articulados de processos de recialização e sexualização absorveu o ethos concorrencial dividindo-se em disputas entre desiguais para provar quem é mais “vulnerável”. GAMSON (2002) problematiza como a organização de políticas voltadas para as demandas de grupos identitários requer provas sólidas de uma autêntica pertinência étnica, da qual constituem exemplos a imutabilidade da orientação sexual. Também problematiza como tal exigência desencadeia formas de atuação paradoxais para grupos estigmatizados, desde a produção de um sujeito político frágil e dependente a subjetivação de ethos empresarial presente num ideal de cidadania vinculado ao consumo de “direitos” e ascensão individual.

Crítica descolonial chama a atenção para a para a necessidade de acurar nossas ferramentas de análise, que subsidiem intervenções mais estratégicas, considerando a maneira como a nossa linguagem, nossa maneira de ver e sentir o mundo e, inclusive, de organizarmos nossa resistência coletiva, foi performatizada por interesses daqueles acreditamos combater como inimigos.

Apontando as estratégicas epistemológicas da colonização como base para a hierarquias estabelecidas pelo capitalismo da qual fazem parte processos articulados de racialização e sexualização das populações, Grosfoguel (2008, 2012) nos apresenta uma série de experiências que demonstram ser possível pensar a organização de nossa resistência coletiva a inspirado/as em sistemas epistemológicos que escaparam a homogeneização colonialista ocidental, apontando como tais experiências se efetivam mediante o desnudamento contínuo do caráter fictício da “nação” como unidade de indivíduos soberanos, “um esforço para apagar a margem como o propósito de reificar o espaço homogêneo que constrói com a exclusão do outro” (GROSFOGUEL, 2012, p. 339). Também destaca a necessidade da descolonização do conhecimento e da universidade como pontos estratégicos fundamentais na luta pela descolonização radical do mundo.

As ferramentas teóricas usadas para compreender as dinâmicas apontadas nos mostram como estivemos enredados nas técnicas de controle que constituem o sistema de dominação, o que não significa, entretanto, que devemos desperdiçar o potencial das iniciativas por conta da  apropriação enviesada que tem sido feita. O próprio esforço por um investimento conceitual demonstrado por Dagnino (ano) demonstra a conformação de um campo aberto à construção.

Podemos começar reconhecendo que e a maneira como se tomou a esfera “econômica” empobreceu a potencialidade e alcance crítico das iniciativas, desconsiderando como importantes aspectos mobilizadores dos contextos em que se inscrevem tais iniciativas. Experiências tomadas como inspiradoras, como aquelas articuladas na Índia por Gandhi, pelo movimento cooperativo da região de Mondragón, situada no País Basco (Estado Espanhol) ou do Grameen Bank, em Bangladesh são marcadas por processos intensos de racialização e sexualização. Além disso análise realizada pela historiadora Joan Scott (1991) aponta a participação das mulheres na construção de circuitos diretos entre produtores/as e consumidores/as no contexto urbano europeu do final do dezenove, além da atuação na organização de formas coletivas de produção e comercialização que mais tarde se constituíram no fundamento para a organização do movimento cooperativista internacional. E o que dizer também das experiências desenvolvidas pelo movimento zapatista de Chiapas, no México, das mulheres de Cheran, cidade localizada em Michoacán, um dos mais sangrentos estados mexicanos onde as mulheres conseguiram construir um modelo de gestão do local utonomo em relação ao Estado e narcontraficantes?[7]

A experiência acumulada na tentativa de criar uma pauta no âmbito das instituições governamentais demonstrou que a padronização e universalização de modelos não funciona, pois as maneiras como diferentes grupos sociais interpretam e utilizam um artefato tecnológico não lhes são extrínsecas e só é possível entender o seu desenvolvimento face ao contexto sociopolítico e relações de forças e interesses entre indivíduos e grupos envolvidos na sua produção. O exercício nos possibilita perceber como um artefato pode ser rico em possibilidades de subverter efeitos de racialização e sexualização, articulando a obtenção de benefícios “práticos”, relacionado à construção de alternativas para problemas imediatos (como demandas relacionadas à alimentação, educação, produção de energia, habitação, trabalho, renda, saúde, água potável, dentre outros). Há, além disso, as vantagens de caráter continuado e duradouro.  Uma vez que artefatos tecnológicos são constituídos mediante o fortalecimento de processos coletivos, mediante uma série de exercícios que ensejam o adensamento da reflexividade e o desenvolvimento de habilidades de organizar e sistematizar conhecimentos obtidos com o diálogo entre diferentes saberes, reverberam nos processos de subjetivação das pessoas envolvidas e na maneira como atuam coletivamente.

Assim, as tecnologias sociais se constituem como um modo de fazer, um modo de produzir conhecimento que fortalece processos coletivos que ensejando o desenvolvimento da habilidade de planejar, sistematizar e identificar de maneira estratégica parcerias e alianças. Além disso, sua eficácia está no fato de poder ser alcançada ou repetida recriada, ajustada, agregando novos elementos pelas pessoas do grupo. São, por isso, vincadas por um profundo comprometimento com o “local”, com seu processo de funcionamento e a manutenção de seus ciclos de renovação.

Num momento em que a universidade sofre a pressão para se comprometer com uma agenda que em nada melhora as condições de vida das pessoas para as quais deve estar voltada, sendo cada vez mais demandada a se comprometer com dinâmicas que aprofundam o fosso das desigualdades, torna-se imperativo investir na geração autônoma de bases próprias de ciência e tecnologia. A construção de uma agenda de atividades de ensino, pesquisa e extensão que considerem o ambiente científico latino-americano diante do quadro internacional pode se constituir num locus de encontro entre universidade e sociedade e atualização de seu significado social nos cenários contemporâneos.

Como recomendação contida na Política de Ciência, Tecnologia e Inovação para as Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas, elaborada pelo Grupo de Trabalho do CNPq, criado pela Portaria 360/2014, “o processo de inovação não pode vir desacompanhado da necessária atualização de nossas melhores tradições políticas e culturais, bases sobre as quais se assentam, de fato, as possibilidades de uma apropriação consciente desses avanços” (CNPq, 2014,p). O documento também recomenda que não se pode considerar o que denominamos de inovação tecnológica, seja em relação a processos seja em relação a produtos, como resultando de apenas um único vetor, disciplina ou área de conhecimento, considerando que “resultam de investimentos múltiplos e por isso são, em suas dimensões científicas, essencialmente transdisciplinares” (CNPq, 2014,p)

Enfatizar os contextos culturais não significa reiterar posturas essencialistas que só servem a interesses externos. A proposta de Gandhi incluía uma política científica e tecnológica explícita, fundamental para sua implementação. A insistência na proteção dos artesanatos das aldeias não significava uma conservação estática das tecnologias tradicionais, implicava justamente o melhoramento das técnicas locais, a adaptação tecnológica ao meio ambiente e às condições da Índia. Como aponta Dagnino (ano), seu objetivo final era a transformação da sociedade hindu, através de um processo de crescimento orgânico, feito a partir de dentro, e não através de uma imposição externa.

Ademais, a avaliação dos processos registra também a dificuldade de iniciativas “populares” em dominar os complexos mecanismos de gestão requeridos para atuar nos circuitos exteriores aos grupos, bem como a dificuldade de profissionais e técnicos em estabelecer uma interlocução com os grupos que apresentavam as demandas.

Dialogando com o quadro apresentado, o NINETS surge da reflexão que se adensou na experiência acumulada por suas/seus integrantes como um esforço coletivo para implementar processos articulados de investigação, extensão universitária, produção, inovação e difusão tecnológica pautado pelos objetivos a seguir delineados.

[1] http://www.unitrabalho.org.br/

[2] http://ads.org.br/

[3] http://www.dieese.org.br/

[4] http://www.fase.org.br/

[5] Definição encontrada em www.rts.org.br

[6] Citar cursos de Foucault de  1979

[7] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37643745